Este artigo revisita um artigo original apresentada pelo autor em 2003, em função de uma atividade desenvolvida com uma turma de Administração da ULBRA – Gravataí, sobre o Varejo Brasileiro, Estadual e Municipal, inspirado pela Feira Brasileira do Varejo, que está acontecendo em Porto Alegre esta semana sobre a Informalidade no varejo brasileiro.
Juntamente com a Norte Mercadológico Consultoria Empresarial, atualizamos a pesquisa e as informações, realizamos análises comparativas, elaboramos análises estratégicas e recomendações com perspectivas de futuro para empresários do varejo que precisam navegar neste cenário complexo.
Há mais de duas décadas, o artigo "A informalidade asfixiando o varejo" denunciava um problema estrutural da economia brasileira: a gigantesca informalidade que sufocava o comércio formal, gerava concorrência desleal e impedia o desenvolvimento de milhões de pequenos negócios. Na época, os dados da Pesquisa Economia Informal Urbana (ECINF 2003) revelavam um cenário alarmante: 10,3 milhões de negócios informais, 14 milhões de trabalhadores ocupados (25% da força de trabalho não-agrícola), 88% sem qualquer registro e 94% sem acesso a crédito recente. A receita total do setor informal era de R$ 17,6 bilhões.
Duas décadas depois, o Brasil é um país profundamente transformado. O mercado de trabalho bate recordes históricos — desemprego de 5,1%, 103 milhões de ocupados, 38,9 milhões com carteira assinada. A informalidade caiu, mas ainda atinge 38,1% dos trabalhadores. E a carga tributária alcançou 32,4% do PIB — o maior nível já registrado, totalizando R$ 4,12 trilhões em tributos.
O artigo original partia de uma constatação central: o setor informal era, na definição de Portes (1995), "uma resposta construída pela sociedade civil para uma interferência indesejada do Estado". Levenson e Maloney complementavam definindo a formalidade como "participação nas numerosas instituições da sociedade civil" — sugerindo que o setor informal se esquivava dessas instituições.
Os números da ECINF 2003 eram contundentes:
A conclusão do artigo já apontava o paradoxo: a economia informal refletia um sistema tributário oneroso e necessidades de sobrevivência, criando "concorrência injusta" com o setor formal. E identificava dois grupos no informal: aqueles que exploravam mão de obra semiescrava ou mercadorias ilícitas, e aqueles que tinham na informalidade sua única forma de sobrevivência.
Duas décadas depois, o Brasil apresenta um quadro econômico que o autor de 2003 dificilmente poderia prever.
2.1 Mercado de trabalho aquecido
Os dados mais recentes do IBGE (PNAD Contínua, divulgação de janeiro de 2026) mostram:
2.2 A queda da informalidade
A taxa de informalidade passou de 39,0% em 2024 para 38,1% em 2025, atingindo o menor patamar trimestral de 37,5% entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. A coordenadora da PNAD Contínua, Adriana Beringuy, afirmou: "Se eu tirar a observação da pandemia, este é o menor indicador de taxa de informalidade da série comparada."
No entanto, em números absolutos, 38,5 milhões de trabalhadores ainda estão na informalidade. O número de empregados sem carteira caiu para 13,8 milhões (-0,8% vs 2024), mas os trabalhadores por conta própria atingiram 26,1 milhões — o maior contingente da história, com crescimento de 30,4% desde 2012.
Aqui reside uma contradição importante: o avanço da formalização convive com o recorde de trabalhadores por conta própria. Parte desse crescimento é empreendedorismo genuíno, impulsionado pela digitalização e pela economia de plataformas. Mas parte é precarização disfarçada — trabalhadores que seriam empregados formais em outro contexto econômico.
2.3 O varejo: nono ano consecutivo de crescimento
O comércio varejista fechou 2025 com crescimento de +1,6% — o nono ano consecutivo de resultados positivos. O índice alcançou novo patamar recorde em novembro de 2025. No primeiro trimestre de 2026, as vendas cresceram +1,2% em relação ao quarto trimestre de 2025, sinalizando continuidade.
Os setores de destaque foram:
O varejo ampliado (que inclui veículos e material de construção) cresceu +0,1% em 2025, com +2,8% em dezembro na comparação anual.
2.4 Carga tributária recorde
O dado mais paradoxal deste cenário: a carga tributária bruta do Brasil atingiu 32,4% do PIB em 2025 — o maior valor desde o início da série histórica em 2010, segundo o Tesouro Nacional. Foram R$ 4,12 trilhões em tributos.
Este número é particularmente relevante para a tese original do artigo: se a informalidade é uma "resposta à interferência indesejada do Estado", a carga tributária recorde deveria, em tese, estimular ainda mais a informalidade. No entanto, a informalidade caiu. O que explica essa aparente contradição?
A resposta está na combinação de fatores: digitalização da economia (Pix, notas fiscais eletrônicas), políticas de formalização (MEI, Simples Nacional), mercado de trabalho aquecido e fiscalização mais eficiente com cruzamento de dados fiscais e digitais.
3.1 O paradoxo da intervenção estatal
Tese original: "Mais intervenção do Estado empurra a informalidade para o underground." Isso quer dizer o seguinte: “Quanto mais o governo cria regras, impostos ou controles rígidos, mais as atividades informais tendem a se esconder, operar de forma clandestina ou fora da vista das autoridades. ”
Situação atual: A carga tributária recorde (32,4% do PIB) convive com a queda da informalidade (38,1% → 37,5%).
Análise: O paradoxo se mantém parcialmente. A carga tributária asfixia, mas as políticas de formalização (digitalização, simplificação, fiscalização inteligente) têm gerado um efeito compensatório. O custo de ser informal aumentou — tanto pelo risco fiscal quanto pela perda de oportunidades (acesso a crédito, clientes B2B, fornecedores).
3.2 O microcrédito como solução (e seus limites)
Tese original: "Microcrédito indiscriminado gera redistribuição sem crescimento."
Situação atual: O sistema financeiro se transformou completamente. Pix, Open Finance, fintechs e bancarização massiva ampliaram o acesso ao crédito. No entanto, os trabalhadores informais seguem com acesso restrito ao crédito formal justamente por não terem comprovação de renda.
Análise: O alerta original continua válido. Crédito sem capacitação e sem formalização gera endividamento, não desenvolvimento. A inclusão financeira avançou, mas o gargalo é a ausência de lastro formal.
3.3 Investimento em capital humano
Tese original: "Educação e treinamento de trabalhadores são a chave."
Situação atual: Mercado aquecido (desemprego de 5,1%) valoriza fortemente a qualificação. Trabalhadores mais escolarizados têm taxas de formalização muito superiores. O recorde de conta-própria (26,1 milhões) inclui desde profissionais altamente qualificados (consultores, desenvolvedores, designers) até trabalhadores sem qualificação que não encontraram espaço no mercado formal.
Análise: A tese se confirma com força total. O investimento em capital humano é o melhor antídoto contra a informalidade — e a melhor estratégia competitiva para empresas do varejo.
3.4 Descentralização institucional
Tese original: "Prefira associações e câmaras locais a novas instituições."
Situação atual: Sebrae, CDLs, associações comerciais e sindicatos patronais seguem como atores centrais na promoção da formalização e na defesa dos interesses do setor.
Análise: A descentralização continua sendo o caminho mais efetivo. As entidades setoriais conhecem a realidade local e podem oferecer soluções customizadas — exatamente como o artigo original defendia.
3.5 A reforma tributária — o divisor de águas que não existia em 2003
Um tema completamente ausente no artigo original, mas que domina o debate atual: a Reforma Tributária, com a implementação do IVA Dual (CBS federal + IBS estadual/municipal) a partir de 2026.
A reforma promete simplificar radicalmente o sistema tributário brasileiro, unificando cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS) em dois, e eliminando a cumulatividade e a guerra fiscal entre estados.
Para o varejo, os impactos esperados são:
Nota: O risco é que a alíquota padrão pode ser elevada, e a transição será complexa. Empresários precisam se preparar tecnologicamente e entender as novas regras.
Onde estão os 38,5 milhões de informais?
Quem são?
O que mudou na percepção?
Em 2003, o informal era visto como "empreendedor por necessidade" ou "trabalhador precário". Em 2025, o fenômeno se diversificou: ao lado do trabalhador precário tradicional, surgiu o trabalhador de plataformas digitais (aplicativos de entrega, transporte, serviços), que opera uma zona cinzenta entre formalidade e informalidade, e o profissional autônomo de alta qualificação que opta pela informalidade como escolha estratégica.
À luz dos dados e análises apresentados, a Norte Mercadológico Consultoria Empresarial recomenda:
1. Invista em capital humano como prioridade número um
A tese de 2003 se mantém atualíssima: trabalhadores mais qualificados geram mais produtividade, mais inovação e maior competitividade. Programas de treinamento, capacitação e desenvolvimento de carreira são investimento com retorno garantido.
2. Prepare-se para a reforma tributária — AGORA
A tecnologia fiscal deixou de ser opção para ser condição de sobrevivência. Sistemas de gestão integrados, automação fiscal e conformidade digital são investimentos que se pagam com a redução de custos e riscos.
3. Transforme a formalização em vantagem competitiva
Empresas formais têm acesso a crédito, podem participar de licitações, fechar contratos B2B com grandes empresas, emitir notas fiscais e oferecer garantias. Isso não é custo — é diferencial de mercado. Comunique isso aos seus clientes.
4. Fortaleça suas entidades setoriais
CDL, Sebrae, sindicatos patronais, associações comerciais — essas instituições são o canal mais efetivo para políticas públicas e para a defesa coletiva dos interesses do setor. Quanto mais forte a representação, maior a capacidade de influenciar o ambiente regulatório.
5. Use dados para tomar decisões
O IBGE disponibiliza uma riqueza de informações sobre o mercado de trabalho, o comércio e a economia. Dados são o melhor antídoto contra achismos. Acompanhe os indicadores da PNAD Contínua e da Pesquisa Mensal de Comércio.
6. Atenção ao concorrente informal
Com carga tributária recorde, o varejo formal continuará enfrentando concorrência desleal de quem não paga impostos. Estratégias de diferenciação (atendimento, garantia, qualidade, prazo, crédito) são o caminho para competir sem reduzir margens.
Cenário otimista: A reforma tributária reduz o custo da formalidade, a economia continua gerando empregos formais e a informalidade cai para a casa dos 30% até 2030. O Brasil consolida um círculo virtuoso de formalização, crescimento e redução das desigualdades.
Cenário moderado: A reforma tributária enfrenta dificuldades na implementação, o mercado de trabalho desacelera e a informalidade se estabiliza entre 35-37%. O Brasil avança, mas não resolve o problema estrutural.
Cenário pessimista: A carga tributária continua subindo, a reforma tributária não entrega a simplificação prometida, e a informalidade volta a crescer. O varejo formal encolhe e a concorrência desleal se intensifica.
Independentemente do cenário, uma coisa é certa: o diagnóstico de 2003 — a informalidade asfixiando o varejo — não desapareceu. Apenas se transformou. A informalidade subiu de 25% para 38,1% da força de trabalho? Paradoxalmente, sim e não: em 2003, o conceito era mais restrito (setor informal urbano não-agrícola); hoje, a PNAD capta todo o mercado de trabalho. O que os dados mostram é que, apesar de todos os avanços, 2 em cada 5 trabalhadores brasileiros ainda estão fora da proteção da formalidade.
Duas décadas depois do artigo original, o Brasil é um país que avançou em várias frentes — o mercado de trabalho está mais aquecido do que nunca, a formalização avança e o varejo cresce. Mas o fantasma da informalidade ainda assombra o setor. A carga tributária recorde é o principal sintoma de um problema estrutural que insiste em não se resolver.
O momento, no entanto, é de otimismo cauteloso. Reforma tributária, mercado de trabalho aquecido, queda consistente da informalidade e recordes de emprego formal formam uma conjuntura rara na história recente do Brasil. As condições para avançar estão dadas. Cabe aos empresários, formuladores de políticas públicas e à sociedade como um todo aproveitá-las.
A formalização não é um custo — é um investimento em competitividade, em dignidade e em futuro. O varejo que entender isso primeiro será o que vai liderar a próxima década.
A Norte Mercadológico atua há mais de 20 anos na interseção entre inteligência de mercado, estratégia empresarial e desenvolvimento setorial. Com foco no varejo e no comércio, a consultoria transforma dados em decisões estratégicas para empresas de todos os portes. Este artigo é parte do compromisso da Norte Mercadológico em contribuir com o debate público e oferecer insights baseados em evidências para o fortalecimento do setor produtivo brasileiro.
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